Ítalo-Brasileiros: bate no peito uma saudade...

Morar no Brasil?
Interesse italiano: profusão de sentimentos: o conflito permanente e o direito de emigrar, uma pátria para poucos, embate entre o antigo mundo rural e a sociedade capitalista emergente, cultura burguesa x cultura camponesa, a fome e a pobreza crônica; a Terra, o Trabalho, a Liberdade, o Sonho... rumo a uma Itália aterritorial, passos doloridos; é preciso coragem!

Interesse brasileiro: a terra ociosa, ameaça de perda, o interesse espanhol, a mão-de-obra especializada, a terra produtiva, e o seu lado deprimente ocorre por conta da política de época: o preconceito populacional de ter grupos socialmente inferiorizados e o desejo-manifesto da elite ao querer "branquear" seu povo.

O desafio: a travessia transoceânica, de alto risco, superlotada, perigosa e difícil, um jogo no escuro, naufrágios comuns; sem requisitos higiênico-sanitários, contaminações, mortes, angústias... havia o horizonte!

Do governo italiano: sob a pressão do capitalismo, milhões de camponeses foram expulsos de suas terras, o mundo velho desaparece a duras penas e, nasce entre muitos sofrimentos, uma sociedade nova; economia estagnada; diminui a população, sobra alimento; aos de lá, recomeçar a vida no meio do mato e entre animais ferozes; envio de "valores" dos que aqui chegaram para parentes que por lá ficaram. O ministro das finanças da Itália considerava tais remessas um ruscello d'oro (filete de ouro).

O nome italiano tornara-se sinônimo de divisão.
Como frear a expatriação de famílias inteiras e de inteiras populações?

Itália bela, mostre-se gentil
e os filhos seus não a abandonarão,
senão, vão todos para o Brasil,
e não se lembrarão de retornar.
Aqui mesmo ter-se-ia no que trabalhar
Sem ser preciso para a América emigrar.
O século presente já nos deixa,
o mil novecentos se aproxima.
A fome está estampada em nossa cara
e para curá-la remédio não há.
A todo momento se ouve dizer:
eu vou lá, onde existe a colheita do café.
Canção dos Imigrantes Toscanos. Final do século XIX. In: MARTINS, Ana Luiza. Império do café: a grande lavoura no Brasil, 1850-1890. São Paulo: Atual, 1990. p.71.

A esperança: viver com mais dignidade e alegria, porém, longe da Terra Natal e das raras festas barulhentas. Cá vieram e a Itália prospera, levanta-se mediante capitalismo agrário - a construção das primeiras fábricas e novos serviços (laticínios, pecuária, agricultura, serralherias, marcenarias), é a certidão de nascimento na era industrial.

Minha inspiração: o afeto familiar, a saudade dos amados pai e mãe que se foram, e também de quem não conheci, como meu irmão Sergio Roberto Rodi, do meu avô Luiz Lourenço Rodi, da minha avó Paulina Arboit Rodi que não abracei, de seus pais, seus avós, seus bisas, e dos pais, avós ou bisas desses queridos bisas.

Qual objetivo? Conhecer a história da família a partir dos ouvidos de criança entremeio aos brinquedos, recortes de distração ou imaginação infantil, e muita busca em documentos, fotos antigas, livros, sites, artigos, periódicos, visitações e conversas.

Em 2009, recebi de meu irmão Luiz a missão de investigar sobre nossas origens italianas. Nosso pai, Newton Arboit Rodi, faleceu em 1989. Minha mãe Yonne de Souza Pereira Rodi faleceu em 2014. Mesmo assim a pesquisa iniciou ou continuou após suas partidas, com vagas lembranças e muito desejo de arrumar a memória familiar.

Quem somos?
Na família paterna temos quatro grupos familiares vindos da Itália, os nossos Ítalo-Brasileiros são da família Rodi e Zibardi da região da Lombardia, Arboit e Bertelli da região do Veneto. As famílias chegaram ao Brasil em navios diferentes nos idos de 1877 e 1888. E os nossos bisavós se casaram no Brasil em 1887 e 1889 respectivamente. Este Blog é dedicado à Família Arboit, de Rocca d'Arsiè.

Na relação de vapores entrados e registrados pelo SIAN (Sistema de Informações do Arquivo Nacional) encontramos as chegadas de grupos italianos desde 1875. E hoje somos cerca de 25 milhões no Brasil. Constatamos que os ítalo-brasileiros são considerados a maior população fora da Itália. E para além dos números nos deparamos com um povo sofrido em suas duras privações. É o que se revela em muitas correspondências entre imigrantes e seus parentes, e em especial nestes trechos de carta escrita por camponeses da Lombardia, datada de 1876, e assinada por muitas pessoas, em resposta ao ministro Nicotera, autor de uma circular restritiva no setor da emigração, que os aconselhava a não emigrar:

"Encare-nos, senhor barão. As nossas faces pálidas e amareladas e nossas maçãs do rosto afundadas, com sua muda eloquência, não lhe são testemunhas de excessiva fadiga e de absoluta falta de nutrição? Nossa vida é tão amarga que por pouco não é morte. Cultivamos o trigo e não sabemos o que é o pão branco. Cultivamos vinhas e não bebemos vinho. Criamos animais e nunca comemos carne. Vestimos farrapos, moramos em covis... E com isso, o senhor não pretende que emigremos? Oprimidos e vexados em todas as maneiras possíveis, vamo-nos embora, para que o senhor viva melhor...".
VILLA, Deliso. Storia Dimenticata: l´'emigrazione italiana: il più grande esodo di un popolo nella storia moderna. Porto Alegre: ESTedições, 2002. p.106.

- É uma pátria a terra em que não se consegue viver do próprio trabalho?

TENHA ORGULHO DE SEUS HUMILDES ANTEPASSADOS
São as pessoas humildes que eu procuro,
O sal da Terra, por assim dizer,
Aqueles que domaram o solo bruto,
E fizeram nele as sementes florescer.

São estes que eu gosto de encontrar
Quando mergulhada na estrada da genealogia.
E é apenas por orgulho que me deixo levar,
Refazendo seus passos para assim os imortalizar.

Aqueles que buscam o passado com sonhos de glória,
De encontrar heróis educados em cada história,
Não devem jamais se desapontar
Ainda que descobrirem que os humildes ancestrais
Tinham somente as estrelas para contemplar.
G. McCov / Source: The Sunny Side of Genealogy, compiled by Fonda D. Baselt, Genealogical Publishing C., Baltimore, 1988, p.10. Tradução livre Lea S. Beraldo.

As saudades de não sei o quê é o sentimento que me move à conexão familiar e ao encontro da história que se vincula às muitas outras histórias familiares.

Comentários

  1. Nossa, comecei a ler e meu coração foi batendo cada vez mais forte, não consegui conter as lágrimas...muito lindo. Parecia estar lendo sobre minha família.
    Sempre tive vontade de saber sobre meus avós paternos.
    Eram portugueses. Mas não sei muita coisa ou quase nada. Lindo muito linda história.

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    1. Uma história verdadeira que reflete todos aqueles imigrantes amontoados em navios nos escuros das noites ou manhãs incertas, que graças aos céus e à fé fervorosa até se identificavam na viagem, ali cuidavam um do outro. A esperança se contrastava nos belos horizontes da alvorada ou nos espetáculos dos pores do Sol. Minha gratidão a todos esses personagens anônimos que souberam dar um basta ao sofrimento em busca de um novo lugar para viver de seu trabalho, com mais dignidade. Coragem significa agir de acordo com o que se sente verdadeiramente. Dar cor à vida! Que assim seja. Aqui estamos nós, seus descendentes!

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  2. A busca pelos nossos antepassados é fascinante. Descobrir os elos perdidos é incrível. Parabéns por esse zelo com a história e obrigado por ter me ajudado sempre nas descobertas ou confirmação dos laços de parentesco. Muito bom!!!

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    1. É a grata possibilidade da pesquisa, os elos de ligação que vamos constituindo durante a pesquisa e que nos tornam ainda mais felizes. A família NUNES FERREIRA é do ramo materno de meu esposo, e resgatar nossas raízes nos emociona muito, a todos da família de Dona Odila Nunes Ferreira (nome de solteira), filha de Augusto Nunes Ferreira. Obrigada pelo carinho e incentivo!

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